Páginas

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A noite de sexta feira


No dia 31 de janeiro de 2014 a minha irmã Nelimar me chamou para conversar, junto com minha mãe.  Foi uma noite muito estranha, muito diferente. Naquela noite para fazer um percurso de meia hora, gastei duas horas e meia, por uma série de atrasos e desencontros. Teria que dirigir um estudo bíblico com a igreja que congrego, mas nem isso consegui fazer.

Quando finalmente cheguei à casa de minha mãe, jantamos os três juntos, e após jantarmos, ele segurou as nossas mãos, e, entre lágrimas, nos disse que nos amava, que nunca queria nos ver sofrer, mas tinha que nos dizer uma coisa muito importante.

Há mais ou menos um ano ela havia notado em sua mama direita uma coceira, e um mau cheiro, o que a levava a se isolar de todos, a se recolher no quarto, a se separar de nós. Ela estava com câncer.

Em meio a lágrimas de desespero, de choro, ela nos dizia que não sabia fazer nada além de cozinhar e costurar, e que estava tentando minimizar os sintomas com pomadas, e aliviando as poucas dores com analgésicos. Confesso que até hoje, quando escrevo estas linhas, as lágrimas caem, imaginando a angústia e sofrimento solitário que ela passou.

Somos cristãos, temos fé, não cristãos nominais, mas cremos piamente no Senhor e na Sua providência, e temos consciência de que tudo está em Seu controle, mas nos damos a liberdade de chorar, de sentirmos tristeza, sem que isso afete nossa fé.

 Mais tarde chegou minha outra irmã, a Mônica, que compartilhou nossa tristeza. Choramos juntos, sabíamos que uma jornada estava começando. 

Isso foi numa sexta feira, á noite. Sou casado, tenho minha família, mas nesta noite dormi com eles, compartilhando a tristeza que se abateu sobre nós, sem sabermos o que teríamos que fazer, apenas confiando em Deus.

Naquele dia, parece que pressentindo a noite que viria, havia escrito um poema:

Noite

Hoje a noite não me surpreendeu
Não a esperei de mãos vazias;
Me armei com meus medos,
Minhas vertigens me foram escudo.
Vesti-me de pavor,
E do que me causa dor fiz um amuleto
Me apeguei a mim mesmo
como quem se apega ao nada quando cai
agarrando o ar enquanto se debate
Assim recebi a noite
E assim ela chegou.
Hoje eu surpreendi a noite.
Ela não me achou com as mãos vazias.
Cheio de mim mesmo a acolhi,
Me fiz parceiro dela enquanto seu frio me acolchoava;
E suas trevas me cobriam.
Não surpreendi a noite,
Ela mesma encheu minhas mãos.