No dia 31
de janeiro de 2014 a minha irmã Nelimar me chamou para conversar, junto com minha
mãe. Foi uma noite muito estranha, muito
diferente. Naquela noite para fazer um percurso de meia hora, gastei duas horas
e meia, por uma série de atrasos e desencontros. Teria que dirigir um estudo
bíblico com a igreja que congrego, mas nem isso consegui fazer.
Quando finalmente
cheguei à casa de minha mãe, jantamos os três juntos, e após jantarmos, ele
segurou as nossas mãos, e, entre lágrimas, nos disse que nos amava, que nunca queria
nos ver sofrer, mas tinha que nos dizer uma coisa muito importante.
Há mais
ou menos um ano ela havia notado em sua mama direita uma coceira, e um mau
cheiro, o que a levava a se isolar de todos, a se recolher no quarto, a se
separar de nós. Ela estava com câncer.
Em meio a
lágrimas de desespero, de choro, ela nos dizia que não sabia fazer nada além de
cozinhar e costurar, e que estava tentando minimizar os sintomas com pomadas, e
aliviando as poucas dores com analgésicos. Confesso que até hoje, quando
escrevo estas linhas, as lágrimas caem, imaginando a angústia e sofrimento
solitário que ela passou.
Somos
cristãos, temos fé, não cristãos nominais, mas cremos piamente no Senhor e na
Sua providência, e temos consciência de que tudo está em Seu controle, mas nos
damos a liberdade de chorar, de sentirmos tristeza, sem que isso afete nossa
fé.
Mais
tarde chegou minha outra irmã, a Mônica, que compartilhou nossa tristeza.
Choramos juntos, sabíamos que uma jornada estava começando.
Isso foi
numa sexta feira, á noite. Sou casado, tenho minha família, mas nesta noite
dormi com eles, compartilhando a tristeza que se abateu sobre nós, sem sabermos
o que teríamos que fazer, apenas confiando em Deus.
Naquele
dia, parece que pressentindo a noite que viria, havia escrito um poema:
Noite
Hoje a
noite não me surpreendeu
Não a
esperei de mãos vazias;
Me armei
com meus medos,
Minhas
vertigens me foram escudo.
Vesti-me
de pavor,
E do que
me causa dor fiz um amuleto
…
Me
apeguei a mim mesmo
como quem
se apega ao nada quando cai
agarrando
o ar enquanto se debate
Assim
recebi a noite
E assim
ela chegou.
…
Hoje eu
surpreendi a noite.
Ela não
me achou com as mãos vazias.
Cheio de
mim mesmo a acolhi,
Me fiz
parceiro dela enquanto seu frio me acolchoava;
E suas
trevas me cobriam.
Não
surpreendi a noite,
Ela mesma
encheu minhas mãos.